Entrevistas

Psicóloga fala sobre importância do Setembro Amarelo, do debate sobre saúde mental e prevenção ao suicídio

10 de Setembro de 2019 às 10h37 - Por: Rafael Albuquerque (@rafaelteescuta) Foto: Divulgação
[Psicóloga fala sobre importância do Setembro Amarelo, do debate sobre saúde mental e prevenção ao suicídio]

Marta Érica Souza é psicóloga do Hapvida Saúde e falou sobre assuntos importantes durante a entrevista

A entrevista deste semana no PNotícias é com a pisicóloga Marta Érica Souza, do Hapvida Saúde, que falou sobre a importância da campanha Setembro Amarelo, além de esclarecer diversos temas ligados à saúde mental e da prevenção ao suicídio. Confira abaixo:

PNotícias: por que é tão relevante falar sobre prevenção do suicídio?
Marta Érica Souza:
Falar sobre prevenção é aceitar que o suicídio existe, que ele é presente em nossa comunidade e acreditar em medidas de precaução, além de buscar diariamente a conscientização da população frente ao assunto. Em média, 11 mil brasileiros se suicidam por ano, sendo esta a oitava maior causa de morte entre as mulheres. Entre o público masculino, o suicídio é a terceira e, entre jovens de 15 a 29 anos, a segunda maior causa de mortalidade. 

PNotícias: você acredita que o assunto ainda seja um tabu? Por quê?
Marta Érica Souza: 
Sim. Em alguns casos, por medo ou culpa. Por não saber o que falar ou como agir diante da afirmativa ou possibilidade de alguém conhecido ou próximo cometer o suicídio, a grande maioria das pessoas tendem a não conversar sobre suas dores. É muito difícil falar sobre suicídio em uma sociedade onde o belo e a felicidade eterna são supervalorizadas. Nesse cenário, torna-se mais fácil esconder as dores e desavenças em um mundo que encobre o que pode desagradar alguém ou uma comunidade, mesmo que haja real necessidade de buscar ajuda.

PNotícias: em relação à imprensa, o mais adequado é camuflar informações acerca de suicídio, uma vez que há o entendimento de que isso incentivaria, ou falar abertamente até como forma de alerta?
Marta Érica Souza: 
Camuflar e esconder uma informação nunca será a melhor forma de resolver um problema. É necessário que o assunto seja dito, pensado e estudado de distintas formas e por variados meios de comunicação. Precisamos esclarecer os mitos sociais e estar atentos para ensinarmos a população a identificar os sinais de alerta para os comportamentos suicidas. Desta forma, faz-se necessário, sim, que essas informações sejam mostradas para que as pessoas entendam com clareza e percebam a importância de falar sobre suas dores e de olhar para o outro.

PNotícias: De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 800 mil pessoas cometem suicídio por ano. O Brasil é apontado como o oitavo país no mundo com mais ocorrências. A que se deve tal fato?
Marta Érica Souza:
 Não há como generalizar um fato único que aponte o aumento ou diminuição do número de ocorrências de taxa de suicídio no país, mas podemos pensar sobre como este fato é tratado no Brasil, de como a política de prevenção à saúde vem sendo adotada e levada à população de maneira geral, em especial às comunidades mais carentes. Precisamos avaliar também como estamos tratando aquelas pessoas que apresentam fatores de risco. A falta de informação sobre o assunto e o não manejo correto da prevenção à saúde é um fator que deve ser repensado em toda a comunidade que deseja prevenir qualquer tipo de sofrimento psíquico ao indivíduo. Temos que incentivar a população a falar sobre suas dores e necessitamos qualificar profissionais para que haja acolhimento e tratamento.

PNotícias: por que em países cuja qualidade de vida é superior à dos países em desenvolvimento há mais suicídios proporcionalmente?
Marta Érica Souza:
 Países desenvolvidos nos dão a falsa impressão de que a vida será perfeita, ou que já é perfeita. Imagina o quão difícil é para uma pessoa que está "em uma vida perfeita" falar sobre suas dores e mostrar-se frágil? É necessário oportunizar as pessoas para que estas falem sobre suas dificuldades, suas dores e suas vivências. A falsa impressão da vida perfeita em uma sociedade desenvolvida esconde um sofrimento que não pode ser dito ou demonstrado causando grande sofrimento, desta forma, intensificando os fatores de risco de uma possibilidade de suicídio.

PNotícias: há a máxima de que quem quer se matar o faz logo e não fica anunciando. De que forma pensamentos como esse prejudicam?
Marta Érica Souza:
 Quando ouço ou leio esta afirmação me pergunto: será que se as pessoas não falam, não demonstram, não pedem ajuda ou será que nós, enquanto sociedade, comunidade e família, não estamos preparados para observar, entender e ouvir? Quantos casos de suicídio vemos na mídia ou lemos nos jornais e as pessoas falam: " ele era um menino muito quieto, ficava trancado no quarto" ou então "ela sofria violência doméstica, mas não contava para ninguém" ou até mesmo "sempre achei ele meio estranho".  Se prestarmos atenção no outro e formos empáticos, ouviremos os diversos pedidos de socorro.

PNotícias: existem sinais ou sintomas de alguém que esteja prestes a cometer um suicídio?
Marta Érica Souza:
 Alguns sinais devem ser observados e, por vezes, eles ocorrem de forma oculta para a sociedade. Por este motivo, sempre que formos pensar em comportamento suicida, devemos ser empáticos e extinguir o julgamento, tendo em vista que estes comportamentos são pedidos de socorro. Imaginar uma pessoa que sempre teve um bom comportamento social apresentando isolamento e distanciamento de amigos e familiares; diminuição de rendimento escolar ou trabalho; falas, comportamento e pensamentos de autodestruição; diminuição ou total ausência de autocuidado; mudança de alimentação; modificação do hábito de sono; fala de desesperança; alteração abrupta de nível de humor,  autoagressão e o uso abusivo de alguma substância psicoativa ou até mesmo do álcool são alguns dos sinais que, quando apresentados, devem ser observados com cautela, sempre ofertando o cuidado ao outro.

PNotícias: em geral ligamos casos de suicídio muito à depressão. Há essa relação direta?
Marta Érica Souza: 
Há algumas formas de apresentação da depressão. A Classificação Internacional de Doenças a classifica como leve, moderada, grave, recorrente, dentre outras. Por este motivo, não podemos generalizá-la como único fator ou comportamento de risco para que o suicídio venha a acontecer. Claro que devemos ter cuidado quando alguma pessoa apresenta algum sinal ou sintoma depressivo e este deve ser encaminhado para tratamento, contudo não deve ser visto como fator determinante para o suicídio.

PNotícias: qual o melhor a se fazer quando identificamos que alguém externa pensamentos ou comportamentos suicidas?
Marta Érica Souza:
 Deve ser realizado o acolhimento pela família e comunidade, seguido do encaminhamento para postos de saúde que possuam profissionais habilitados para intervenção. O tratamento deve ser iniciado por um psiquiatra, seguido de um psicólogo, logo após a verificação da possibilidade de algum comportamento suicida.

PNotícias: além da depressão, quais outras doenças mais acometem a saúde mental do homem?
Marta Érica Souza: 
Dentre as doenças que acometem a saúde do homem e da mulher estão presentes a ansiedade, síndrome do pânico, estresse, transtorno afetivo bipolar, esquizofrenia e outras psicoses, demência, entre outras.

PNotícias: por fim, qual a importância do setembro amarelo?
Marta Érica Souza:
 Levar o conhecimento à população, desfazer os mitos existentes sobre o suicídio, sem nunca menosprezar o cuidado ao outro e a nós mesmos.

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