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ÁLCOOL E ALCOOLISTA

18 de Outubro de 2023 às 07h31 - Por: Padre Alfredo Dorea * Foto: Divulgação
[ÁLCOOL E ALCOOLISTA]

In memoriam de meu pai

O álcool é uma das drogas lícitas que criam grande dependência. Seu uso desregrado pode desencadear mecanismos como a abstinência, a tolerância e outros danos físicos e sociais. Alcoolistas são aquelas pessoas que não podem prescindir de bebidas alcoólicas e à medida que o tempo passa, necessitam consumir quantidades cada vez maiores e em intervalos de tempo sempre mais curtos.

No Brasil, o alcoolismo afeta diretamente cerca de 18 milhões de pessoas. Por sua grande popularidade e aceitação social, o álcool é a droga lícita mais consumida no mundo e justamente por essa razão faz milhões de vítimas. E quando falamos em vítimas, nos referimos também a vítimas fatais. O alcoolismo está na lista oficial de doenças da OMS (Organização Mundial da Saúde). Uma doença crônica, primária, que pode gerar outras doenças relacionadas ao coração, estômago, fígado, entre outras. Sem falar que o alcoolismo em si é um transtorno mental. Isso significa que abala a saúde mental e emocional da pessoa que faz uso incontrolável. O Brasil é o terceiro país das Américas com mais mortes de pessoas causadas pelo álcool, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, a tendência de consumo é progressiva, colocando o alcoolismo entre os principais problemas de saúde pública no nosso país.

A síndrome de dependência do álcool, como está conceituada na Classificação Internacional de Doenças (CID-10), não afeta somente a saúde física e emocional da pessoa; também deixa marcas profundas no seu entorno social, na família e especialmente em crianças e adolescentes em processo de desenvolvimento, que são obrigadas a conviver diariamente com os efeitos do consumo excessivo de álcool nas dinâmicas familiares e comunitárias.

É imperioso compreender que o alcoolismo é uma doença; que a pessoa dependente, por mais responsável que seja por todos os conflitos e sofrimento causados, também precisa de apoio. Há programas específicos para enfrentar esse tipo de situação, com terapias tanto para dependentes como para os familiares. O diálogo consciente minimiza as chances do desenvolvimento da dependência no futuro ou a busca por um parceiro dependente. De maneira consciente ou inconsciente, crianças e adolescentes que são expostos a dependência de um dos genitores podem favorecer estes comportamentos na tentativa de compreensão das razões que levaram à aquisição da dependência, aproximação dos progenitores ou então, reparação de seu passado em um relacionamento que remeta à mesma dinâmica.
A prevenção é necessária e precisa considerar as particularidades do fato. Uma adequada prevenção não há de proibir o consumo, mas ajudar a evitar que o seu uso desregrado crie problemas tanto para a pessoas que consomem, como para a sociedade. Prevenir o uso precoce de bebidas alcoólicas entre adolescentes e jovens implica em prevenir ou reduzir os riscos relacionados ao seu consumo em adultos.

O uso excessivo de bebidas alcoólicas entre adolescentes, jovens e adultos, pode ser mitigado por medidas proporcionais de prevenção. Há restrições que podem ser estabelecidas pelo próprio estado, quer seja a limitação de horários e locais de venda, estabelecimento de idade mínima legal para compra, campanhas publicitárias de prevenção e alerta sobre os riscos do uso abusivo. Em alguns ambientes específicos como empresas ou escolas, cabem algumas medidas regulatórias ou acordos coletivos.
A promoção de condições de vida saudáveis, por exemplo, sob a forma de espaços públicos, instalações recreativas e infraestruturas para os adolescentes e jovens, também contribuem para a prevenção de problemas relacionados com o uso abusivo de álcool.

É importante que os jovens se envolvam ativamente com os conteúdos e que as medidas preventivas não se limitem à simples transmissão de conhecimentos. Outra abordagem importante à prevenção, além da prevenção individual, é aquela que envolve a família e os pares.
Reconhecer um alcoolista é essencial para ajudar a pessoa a superar este desafio. Nos casos de alcoolismo nas famílias, é fundamental dar o apoio adequado aos nossos entes queridos que vivem esta realidade. O ideal é convencer a pessoa a procurar profissionais ou instancias especializadas, onde seja possível lidar com o transtorno da maneira adequada e correta.
Um sintoma que pode identificar um alcoolista é a sua busca contínua e incontrolável pelo álcool. Não me refiro ao clássico copo de vinho após a refeição, ou à cerveja com o grupo nos finais de semana, mas sim à necessidade constante e compulsiva do consumo de álcool - a tal ponto que muitas vezes a pessoa sai especificamente para comprá-lo, e se torna agressiva se não tiver modo de fazê-lo.
Outro sintoma consiste em mudanças bruscas de comportamento: autênticas alterações de humor, em que a pessoa parece nervosa, inquieta e às vezes violenta. Os alcoolistas são acometidos pela ansiedade, são muito afetados pelo estresse, ficam angustiados e em algumas situações tristes. É um grande desafio conviver com alguém que está vivendo esta dependência.
Muitas vezes o consumo excessivo de álcool incide sobre a atividade profissional da pessoa em questão, que se torna quase sempre distraído, pouco fiel aos compromissos e pouco atento ao trabalho e às tarefas diárias. Esquecem-se das promessas feitas, têm dificuldade de concentração, não conseguem mais cultivar relacionamentos sólidos e tendem a se isolar. É lógico que todos esses comportamentos variam de pessoa para pessoa e não são fáceis de compreender. Um erro que muitos cometemos é postergar a busca pelo tratamento, por acreditar que as circunstâncias não são tão graves quanto pensamos. Os pensamentos recorrentes são os típicos: “ela pode parar de beber quando quiser”, “afinal ele não bebe tanto”, “basta um pouco de força de vontade e não há necessidade de procurar um especialista”.

O alcoolismo é uma doença; à medida que avançamos, o problema torna-se cada vez mais sério e complicado na sua solução.
A dependência do álcool pode deixar as pessoas incapazes de realizar até as ações mais normais da vida quotidiana; podem ter perda de memória, explosões violentas; podem protagonizar ações perigosas para si ou para outrem, vide os graves acidentes de trânsito provocados por pessoas alcoolizadas.

A abstinência do álcool pode causar taquicardia, sudorese mais que o normal, tontura, náusea e às vezes vômito, fortes dores de cabeça. Também podem ocorrer tremores nas mãos, perda de equilíbrio, agitação psicomotora e até alucinações visuais, auditivas e táteis.
Tais condições podem ser muito perigosas, sobretudo se a pessoa estiver sozinha naquele momento. É importante que as pessoas próximas estejam atentas a estes sinais.
Em todo este processo é essencial ser empático e compreensivo, sem nunca julgar. Por outro lado, é preciso ser firme e ajudar a pessoal alcoolista a reconhecer este seu estado. Talvez assim ela se convença a buscar ajuda terapêutica profissional.
Familiares e pessoas amigas próximas devem demonstrar disponibilidade e carinho. Isto não significa submeter-se a atitudes agressivas. Pedir ajuda externa é sempre essencial nessas situações.

Por mais doloroso que seja conviver com uma pessoa alcoolista, não podemos obrigá-la a parar de beber. Por mais que isso esteja prejudicando a ela mesma, aos seus familiares e pessoas amigas. Este processo terá mais eficácia quanto maior, mais frequente e expressivo forem o diálogo a paciência, a compreensão e o amor.

* Padre Alfredo Dorea (@padre.alfredo) é um anglicano amante da vida, da solidariedade e da justiça social. Com os movimentos populares, busca superar todo preconceito e discriminação. Gosta de escrever e se comunicar.

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