Entrevistas

Advogado da médica que caiu do 5° andar em Salvador nega que depoimentos de testemunhas inocentem investigado

29 de Julho de 2020 às 20h29 - Por: Redação BNews Foto: Reprodução
[Advogado da médica que caiu do 5° andar em Salvador nega que depoimentos de testemunhas inocentem investigado]

Aloísio Freire também afirmou que acusação já esperava a revogação da prisão preventiva de Rodolfo Lucas

Aloísio Freire, advogado que representa a família da médica Sáttia Lorena, falou nesta quarta-feira (29) sobre a investigação do caso da médica Sáttia Lorena, que caiu do 5º andar de seu apartamento e está internada em estado grave. Ele ponderou que esse momento não é para condenar ou absolver antecipadamente alguém. Aloísio, contudo, discorda da declaração do advogado de defesa de Rodolfo Lucas, ex-companheiro de Sáttia, que afirmou que as testemunhas já seriam provas da inocência do seu cliente. Aloísio também falou sobre o estado de saúde da vítima. Confira a entrevista na íntegra:

Dinho Junior: a gente já sabe que a justiça expediu o alvará de soltura de Rodolfo Cordeiro, que é investigado por tentativa de feminicídio contra a também médica Sáttia Lorena. Enquanto advogado da vítima, a que o senhor atribui essa decisão?
Aloísio Freire:
veja bem, nem a prisão significa uma condenação antecipada, assim como a soltura não significa uma absolvição antecipada. Isso é uma questão eminentemente processual. O decreto de prisão, a nossa avaliação é de que ele, de fato, era frágil. A fundamentação da prisão preventiva, naquele momento, não teceu determinados pontos e recebemos a notícia da revogação com muita tranqüilidade. Porque, o que ocorre? Desde o início, a família da doutora Sáttia, e aí falando pela família enquanto defesa técnica, nós temos adotado a seguinte postura: não é momento de tentar condenar ou absolver ninguém. Não é momento de discutir teses. As investigações estão avançando, é preciso cautela, é preciso entender todo o conjunto probatório que ainda está de formando. Então esse é o momento de confiar na autoridade policial. A doutora Bianca Torres está conduzindo esse inquérito com muita eficiência e é um caso muito complexo, que depende de prova técnica. Claro, há prova testemunhal. Testemunhas dizem de um tudo, não é? Como a gente costuma dizer, testemunha diz a gosto do freguês. O que precisamos, efetivamente, é aguardar os laudos técnicos. Apenas a prova pericial vai poder esclarecer melhor o que aconteceu. 

Dinho Junior: já tem uma expectativa de quando sai o laudo da polícia?
Aloísio Freire:
a expectativa da delega é de que isso aí nos próximos 10, 15 dias... Com a soltura dele, os prazos ficam mais dilatados. Não há urgência em relatar o inquérito com a mesma urgência que há quando o investigado está preso. Eu posso lhe dizer que, talvez, esse seja o efeito mais imediato da soltura. O laudo é complicado, de fato. A construção de todos os exames demanda tempo, então não dá para fixar um prazo. Agora é preciso aguardar isso e, principalmente, essa é a principal expectativa da família, é que a doutora Sáttia possa melhorar, possa se recuperar e que ela possa dizer, efetivamente, o que aconteceu naquele dia. 

Dinho Junior: foi divulgado um vídeo que mostra a Sáttia muito nervosa no elevador, falando ao telefone, mas o que me chamou atenção é que é um prédio com uma estrutura bacana, que tem outros prédios ao redor. Não existe uma câmera de segurança, nenhum tipo de equipamento que possa mostrar realmente esse fato que aconteceu?
Aloísio Freire:
veja Dinho, nós, inclusive, estamos surpreendidos com essas divulgações de imagens porque nada disso ainda está no inquérito. A autoridade policial já requisitou as imagens das câmeras de segurança para justamente saber isso. ‘Temos câmeras que efetivamente flagraram o acontecido?’ Essa é uma duvida que justifica ainda mais essa nossa absoluta postura de cautela.

Dinho Junior: vocês trabalham com alguma outra hipótese ou apenas com a tentativa de feminicídio? 
Aloísio Freire:
é outra questão que precisa do avanço das investigações para ser respondida. Porque, imagine, a dúvida que hoje se coloca é ‘Ela foi empurrada ou ela pulou?’. Mas, eu trarei mais dúvidas quanto a isso: ‘e se ela pulou, porque ela pulou? Ela foi forçada a isso? Ela fez isso por ato voluntário próprio?’. Então, essas são questões que, na fase em que estamos não podem ser respondidas. A gente precisa ponderar que as especulações não ajudam em nada. A gente precisa da prova – e aí volto a dizer que a prova técnica, a prova pericial é absolutamente importante nesse sentido – e, sobretudo, que a própria doutora Sáttia possa dizer por si o que aconteceu, é a nossa principal esperança.

Dinho Junior: Eu preciso te fazer uma pergunta importante sobre a entrevista que fiz com o advogado de Rodolfo Cordeiro. Eu perguntei a ele sobre essa situação da soltura do médico e se ele realmente acha que a perícia iria comprovar a culpa ou a inocência real do investigado. De imediato, a resposta do advogado de defesa foi em dizer que três testemunhas que falaram exatamente o que viram, presenciaram que realmente [Rodolfo] não teria feito o tal ato, já comprova muita coisa. Queria que você desse sua opinião sobre isso.
Aloísio Freire:
veja, a gente compreende absolutamente o papel da defesa técnica do Rodolfo. Ela tem um papel que é diferente do nosso. Nós não estamos aqui acusando ninguém, porque, repito, quem conduz a investigação é a autoridade policial. Nós ingressamos no caso fazendo a defesa técnica da família apenas para contribuir com as investigações e entender quais provas estão sendo amealhadas. Agora, eu posso lhe dizer que não concordo com essa afirmação. Tanto essas testemunhas que foram ouvidas não comprovam nada que as investigações continuam. Se de fato comprovasse a autoridade policial já teria condições de relatar o inquérito e remeter ao Ministério Público. E mais, eu repito, não há uma testemunha que viu, efetivamente, ela passando a perna pela varanda para se jogar ou ele empurrando. Elas dizem que viram ela pendurada. E aí eu volto a repedir, ‘o que antecedeu isso tudo?’. O que antecedeu isso, efetivamente, não há nos autos. Compreendo o argumento da defesa, faz parte de uma construção, agora, nós não podemos aderir a isso. Permanecemos nessa cautela porque as investigações continuam, as investigações são conduzidas pela autoridade policial e, efetivamente, se ao final ficar comprovado que ele não tem nenhuma responsabilidade, tudo bem. Agora, se ao contrário, se ficar comprovado que ele tem responsabilidade, aí sim nós teremos a missão de auxiliar o Ministério Público nessa condenação. Então agora está tudo muito cedo.

Dinho Junior: alguns comportamentos iniciais acabaram sendo divulgados como comportamento agressivos do Rodolfo Cordeiro, uma relação abusiva que existia entre os dois, algumas discussões calorosas que existiam no apartamento... É obvio que o interesse não é julgar ninguém, mas eu queria entender do senhor que está responsável pelo caso, representando toda essa família, como essas informações influenciam no posicionamento de vocês em relação a esse caso?
Aloísio Freire:
eu agradeço o elogio quanto à cautela e quero parabenizar a imprensa também, que tem agido com muita responsabilidade, ouvindo os dois lados, e isso precisa ser pontuado. Quanto a essas questões do relacionamento, nós temos dito sempre – inclusive ratificado, confirmado pela própria autoridade policial, em depoimentos à imprensa – que há nos autos, de fato, a informação de que a relação dos dois não era saudável. Havia sim uma relação conturbada e relatos dão conta de que havia, por parte dele, uma postura abusiva em relação a ela. Então, por exemplo, que roupas ela deveria usar ele que queria dizer; a família relata que ele controlava o celular dela; agora, tudo isso, são informações trazidas por testemunhas que, efetivamente, em relação ao fato apurado, não desviam a defesa do caminho da prudência. Volto a repetir, apenas a prova técnica e a própria palavra da doutora Sáttia [para a comprovação do caso]. Agora, entendemos que há depoimentos e por isso que nós afirmamos que a relação era absolutamente complicada. À medida que as investigações avançam, que o caso vai ganhando repercussão, as pessoas vão se disponibilizando para falar. Teve uma vizinha, que a autoridade policial está tentando intimá-la, que disse a um determinado veículo de imprensa que presenciou brigas. Então a defesa da família da Sáttia Lorena não está aqui querendo criar  nenhum discurso, nem inventar nenhuma situação. Nós apenas reportamos aquilo que oficialmente chegou ao inquérito. Então, efetivamente, essas questão não desviam do caminho que tem que ser adotado por todos, não é momento de buscar condenação antecipada de ninguém e não é momento de buscar a absolvição antecipada de ninguém.

Dinho Junior: então você acha realmente que a revogação dessa prisão preventiva foi uma medida até aceitável da Justiça?
Aloísio Freire:
sim. Recebemos isso com muita tranquilidade, óbvio. Já havíamos dito a família, no primeiro contato que tivemos, que o decreto de prisão era frágil e era até simplista, não dizia detalhes. E é bom frisar que a prisão foi revogada por outro juiz, não pela juíza que a decretou. Então, é uma questão processual. Até um colega disse, em outra oportunidade, ‘não é porque a gente está assistindo a família que a gente vai negar a ciência jurídica’. O direito brasileiro é no sentido, constitucionalmente estabelecido, de que a liberdade é a regra. Então isso não nos causou nenhum estresse e seguimos com muita normalidade, acompanhando as investigações e colaborando. A nossa função aqui é simplesmente colaborar.

Dinho Junior: só para a gente encerrar, eu queria entender como está a situação dela. A expectativa é grande, não só para que a médica Sáttia Lorena venha se recuperar para falar, para contar o que ela tem a dizer sobre o caso, mas, principalmente para que ela esteja bem. Por isso, eu queria saber se há alguma informação sobre o estado de saúde dela. Como ela está nesse momento?
Aloísio Freire:
o estado de saúde dela permanece grave, agora, a informação que eu tive da família é de que vem melhorando gradativamente. Evidentemente, o próprio corpo clínico não tem condições de dizer como ela se recuperará disso, quais sequelas ficarão disso tudo. Agora, é um estado grave, mas evoluindo para melhor. Eu até peço licença para reforçar um pedido que vem sendo feito de doação de sangue. Ela tem passado por diversas cirurgias e precisa de sangue O-, então fica aqui um convite de humanidade e exercício dessa empatia com o próximo. Quem puder doar sangue será um gesto muito bem-vindo por todos.

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